sábado, 10 de novembro de 2012

Paraisópolis - Luminosa (Dona Inês)

Porteira na entrada da Hospedaria da Vó Maria


Fui embora de Paraisópolis emocionado. Foram muitos acontecimentos marcantes. Estar de volta à cidade após 15 anos, reencontrar os tios do meu amigo, saber por eles da morte da Dona Cida (mãe do meu amigo) ocorrida há 3 meses, a amizade da Jandira e o flash back que me veio à cabeça ao andar por cada rua da cidade. Alegrias, tristezas e lembranças. Assim foi a minha passagem por Paraisópolis. Antes de partir, tomei um café da manhã maravilhoso. A Jandira faz um iogurte caseiro com mel que é uma delícia, acrescentei granola e me esbaldei. Tinha bolo, pão de queijo, geléia e queijo fresco. Tudo o que eu gosto. Me despedi da querida amiga Jandira e do pessoal da pousada e fui em direção à Luminosa.

Pelo caminho fui pensando em um monte de coisas. O livro de visitas do Caminho da Fé me surpreendeu. Muitas mensagens de incentivo e apoio. Me senti até famoso por um instante. E ainda mais eu que sou avesso a esse tipo de coisa. O carinho e a energia positiva das pessoas me traziam ânimo e motivação e através disso eu sabia que jamais estaria sozinho. Vocês não fazem ideia o quanto essa energia é poderosa. Passei pela pousada Casa da Fazenda e embora quisesse ter parado, segui em frente. Nesse dia o tempo estava nublado e o calor não era tão sufocante quanto nos outros dias. Um pouco mais a frente avistei uma placa indicando 300 metros para a Hospedaria da Vó Maria. Achei estranho, pois a indicação não coincidia com a marcação do guia do Olinto. E, realmente pude perceber ao longo da estrada que a placa estava completamente errada. Andei mais de 3 Km para chegar ao bairro do Cantagalo e depois à entrada da Hospedaria. Era hora de almoço e resolvi parar para descansar. Fui recebido pelo Rogério e pela Lúcia. A comida estava sendo preparada no fogão à lenha. A Lucia me informou que uma equipe de médicas e enfermeiras iriam chegar para o almoço. Eles faziam parte de um programa da prefeitura que visitava a zona rural a cada 15 dias oferecendo atendimento básico aos moradores.

Aproveitei a ocasião para conhecer as instalações do sítio. Para quem gosta de acampar tem uma área gramada que é uma beleza. Enquanto o Rogério tratava da criação fui fazendo perguntas e observando o seu trabalho. Quando a equipe chegou fui gentilmente convidado para almoçar com eles. Ficaram admirados com a minha coragem em viajar sozinho e ainda mais pela distância, pelo ponto de onde havia saído. Mostrei a minha credencial e os lugares por onde havia passado. Foi duro convencê-los que eu realmente havia começado a peregrinação em São Carlos. A Lúcia e o Rogério foram os meus advogados de defesa. Risos. Assim que o pessoal foi embora eu saí em seguida. Me despedi do simpático casal e rumei com destino à Luminosa. O caminho até a pequena cidade foi mais que tranquilo, ainda mais com uma agradável descida antes da chegada. Passei por Luminosa sem parar, estava ansioso para chegar logo na Dona Inês.

A pousada fica a 4 Km da cidade. A subida íngreme e a estrada ruim  me deu a impressão da distância ser maior. Nesse trecho eu só empurrei a bike morro acima, pedalar nem pensar. Cheguei na Dona Inês por volta das 16:00 h. Ela estava preparando um doce de leite. Me cumprimentou e meu deu a panela pra raspar. É uma pessoa extremamente serena, fala mansa e gestos delicados. O seu marido chegou logo em seguida. O Seu José vinha acompanhado do Pelé, um pastor belga preto. Pra onde ele vai o Pelé o acompanha, um fiel companheiro. O sítio fica no alto do morro. A vista é simplesmente deslumbrante. Pra onde se olha, se vê aquele mar de montanhas e vales. Por ficar num lugar de grande exuberância e beleza o fluxo de peregrinos não pára de crescer. Dona Inês me falou que o Caminho da Fé foi uma benção na vida de todos eles. Quando não tem peregrino hospedado por lá, todos sentem muita falta. No começo do CF a Dona Inês só servia café aos caminhantes e oferecia os doces e bolos feitos no próprio sítio. Depois com aumento do movimento resolveu construir um quarto com banheiro. Atualmente já está com planos de construir um novo cômodo para os peregrinos.

Toda a região é cercada por plantação de bananas. E todas de uma única espécie, a prata. Por onde a vista alcança é possível avistar as bananeiras. O Seu Zé tem saúde e fôlego de menino, pois não é fácil percorrer a plantação, principalmente nas áreas mais afastadas e íngremes. Estar ali era mais uma oportunidade de contemplar a mãe natureza. Fui embora muito mais feliz do que quando cheguei. O caminho por si só se encarrega de nos encher de esperança, motivação e fé.


Recados 5931/32

Paraisópolis-Hospedaria Vó Maria

Saí da Pousada da Praça com aperto no coração, a Jandira é uma pessoa maravilhosa. Conversamos durante muito tempo na noite anterior e pude lhe contar muitas histórias do caminho e o porquê da minha peregrinação. Um beijo grande, Jandira.

O percurso até a Vó Maria foi um pouco cansativo, tem uma placa indicando 300 metros mas andei mais de 2Km até finalmente chegar no bairro do Cantagalo. Almocei por lá e a recepção foi 10. É um ótimo lugar pra quem gosta de camping, tem um gramadão bem legal para armar as barracas.

Hospedaria Vó Maria-Dona Inês

Depois do almoço segui rumo à pousada da Dona Inês. Pedalar depois de almoçar é sempre complicado pra mim, principalmente quando vem uma subidinha pela frente...Depois de alguns quilômetros vem a recompensa. A descida até Luminosa é um alívio para as pernas e um colírio para os olhos. É só soltar os freios e apreciar a paisagem. 

Chegando em Luminosa, uma vilinha pequena e pacata, resolvi ir direto pra Dona Inês parando apenas para tirar algumas fotos da igreja. A subida de 4Km até a pousada foi dura, a máquina estava arrumando a estrada, o que a deixou muito fofa. Empurrar a bike nessas condições foi bem cansativo. No final, cheguei a tempo de apreciar o por do sol. Magnífico!!!



Fotos

Pousada Casa da Fazenda

Nunca estamos sozinhos no Caminho da Fé

Vista da região antes do bairro Cantagalo

Dois porquinhos se divertindo na lama

Faltam 120 Km

Cachoeira. Moradores informaram que não é própria pra banho

Chegando ao bairro do Cantagalo

Igreja

Hospedaria da Vó Maria. Local muito agradável...

Ao fundo já é possível avistar Luminosa

Preferi descer da bike e aproveitei para tirar uma foto

Igreja antes de chegar no centro da cidade

Igreja de Luminosa

Quase no alto do morro está a pousada da dona Inês

Plantação de banana prata
N

Chegando no sítio...

Entrada

Uma gruta com imagens católicas

Pelé tomando conta da minha bike



domingo, 4 de novembro de 2012

Paraisópolis

Pátio interno da Pousada da Praça


Estar em Paraisópolis novamente após 15 anos foi uma grande emoção. Eu recordei o tempo de adolescência, dos 14 aos 20 anos. Naquela época eu tinha um grande amigo cujos pais compraram um pequeno sítio na área rural. Praticamente uma vez por mês a gente pegava o ônibus no terminal do Tietê na sexta-feira e só voltávamos no domingo à noite para São Paulo. Carnaval, então, nem se fala...não perdíamos nenhum. O mais gostoso que me lembro era a nossa caminhada noturna do sítio até a cidade. A distância era de pelo menos 7 Km. Juntava toda a garotada da região e íamos todos juntos até o centro. A caminhada demorava pelo menos 2 horas e meia. Passávamos a noite na cidade nos divertindo e um pouco depois da meia noite voltávamos pro sítio. A escuridão era total. Só era possível ver alguma coisa em noites de lua cheia. E o que não faltavam eram as histórias de assombração que os tios do meu amigo contavam. Um desses tios chegava até a ficar na beira da estrada nos espreitando. Ele colocava um chapéu e uma capa preta e ficava num ponto esperando para nos assustar. Vínhamos aterrorizados e ninguém ousava se afastar do grupo. Apesar do medo, a gente se divertia bastante.

Quando cruzei a praça que circunda a igreja todo o filme dáquela época veio à minha mente. Em poucos segundos pude reviver a magia dos tempos de rapazote. Lembrei das namoradas e das voltinhas ao redor do coreto. Me perguntei: "Como estariam hoje? Casadas ?...com filhos ?...Será que ainda estariam bonitas?" Perdido em devaneios fui seguindo em direção à pousada da Praça. O local me surpreendeu em todos os sentidos. Um casarão antigo com portas e janelas cuidadosamente envernizadas. A fachada pintada num marrom tom sobre tom com detalhes em branco. A parte interna decorada com um jardim colorido e harmonioso. E a decoração com móveis rústicos de muito bom gosto. Tudo combinando perfeitamente. Fui recebido pela Jandira, um amor de pessoa. O Maurão de Inconfidentes já havia me recomendado. Eu tinha planos de pernoitar no bairro do Cantagalo mas não me arrependi por nenhum segundo ter ficado por ali.

No dia seguinte o Tim e a Marílis acordaram cedo e seguiram até Luminosa. Eu resolvi ficar. Eu tinha uma missão a cumprir: Encontrar os tios do meu amigo, 15 anos depois...Será que ainda estavam vivos? Será que moravam no mesmo lugar? Será que iriam lembrar de mim? Era para responder a essas perguntas que resolvi procurá-los. Peguei a minha bicicleta e fui em direção ao sítio. Saindo do centro, desci por uma ladeira íngreme e logo notei que a antiga fábrica da Vigor não estava mais ali. A imensa área ocupada pela empresa estava toda abandonada. Notei também que a rua que dava acesso à rodovia estava asfaltada, naquela época a rua ainda era de terra e quando chovia era um lamaceiro só. Logo que entrei na rodovia atravessei a ponte sobre o rio Sapucaí-Mirim e entrei à esquerda. A fábrica de polvilho ainda estava funcionando e no mesmo lugar de antes. A partir dali era mais ou menos 3 Km. A medida que a propriedade se aproximava, eu ía ficando tenso. O que me esperaria? Depois de alguns minutos de pedalada eu avistei a porteira do lado esquerdo da estrada. Inconfundível. Mesmo depois de tanto tempo eu ainda tinha uma visão perfeita do local. Bati palmas. Os cachorros anunciaram a minha chegada. Ao fundo ouvi o rádio ligado. Ninguém saiu. Bati palmas novamente e dessa vez gritei: "Ôooo de casa!!!" Os cachorros tornaram a latir, dessa vez mais alto. Será que não tinha ninguém? Impossível, o rádio estava ligado...Foi quando eu vi um senhor se aproximando da porteira. Era o Tio Zé!!! Parece que ele tinha envelhecido apenas 5 anos nos 15 em que não o via. A princípio ele não me reconheceu mas quando falei meu nome aí ele lembrou na hora. "Meu Deus!!! O cê por aqui..." Me abraçou e foi correndo contar a novidade para a Tia Tiana. - Ô Tiana, se num sabe quem tá aqui! É o Crispim, amigo do Nenê. A Tia largou o feijão no fogo e veio ver se era verdade...Foi um encontro emocionante!!! Nos abraçamos e nesse momento não pude deixar de me desculpar pela longa ausência... Conversamos durante toda a manhã e acabei ficando para o almoço. Não deixei a Tia matar a galinha para servir de refeição, disse que preferia matar o pintinho que ainda não havia nascido. Um ovinho caipira com arroz e feijão fresquinhos era tudo o que eu queria. Não precisava de mais nada. O Tio Zé ainda me presenteou com uma cervejinha estupidamente gelada, que tomei em três goladas. Estar ali com eles no meio do Caminho da Fé era uma benção de Deus. Depois do almoço tomei um cafézinho e me despedi. Anotei o número do telefone (agora no sítio tinha telefone, santo progresso...) e prometi voltar no próximo ano. Fui embora extremamente feliz e gratificado, pois a minha missão havia sido cumprida.

À noite, conversei durante muito tempo com a Jandira. Conversamos de tudo um pouco, e me senti extremamente a vontade para fazer  algumas confissões. Falei do meu encontro com os tios do meu amigo. Infelizmente fiquei sabendo que sua mãe havia falecido há três meses. Mesmo morando em bairros vizinhos havíamos perdido o contato há muito tempo. A vida na cidade grande é muito diferente da vida no campo, precisei viajar 400 Km para conseguir retomar o contato. O CF ía providenciando os seus milagres. Como falei anteriormente, a própria conversa com a Jandira foi algo inexplicável. Parecia que eu estava confidenciando com uma amiga de muitos anos. Essas coisas acho que só acontecem no Caminho da Fé. Muito obrigado Jandira pela amizade e pelo carinho com que me recebeste. Ficarei eternamente grato. Na manhã seguinte, eu já estava pronto e renovado para continuar a minha caminhada...


Recado 5906


Descanso em Paraisópolis

É isso aí, amanhã vou passear pela cidade e provavelmente seguirei só na 4ªfeira...

Um agradecimento especial aos amigos:

Gesualdo/Mogi Guaçu
Alison/São Carlos
Wagner/Ribeirão Preto
Mario/Águas da Prata
Tiago/Ribeirão Preto
Ednaldo/Salvador
Carlão/Natal

Até a próxima cidade...




Recado 5907
Rogério Ferraro de Araras/SP

para Crispim.
Venho acompanhando sua peregrinação de bike,e fico muito contente por ver sua superação e força de vontade,é isso aí mesmo,o CF,é maravilhoso ,a cada momento nos trás sentimentos que somente quem já o trilhou consegue mensurar.
Um grande e fraternal abraço.Que DEUS,e Nossa Senhora o proteja.Amém.



Recado 5908
Maria Luiza de Araras/SP

Olá Crispim!
Estou na torcida por vc tbm. Fiz o CF em 2010,é inesquecível!Um lugar que marcou muito foi a pousada da D.Ines. A vista é deslumbrante e o céu estrelado simplesmente inesquecível! Talvez seja sua próxima parada.Aproveite a beleza do lugar! Que Nossa Mãe o acompanhe !!
Abraços.



Recado 5909
Branca Fonseca de São Paulo/SP

Para o meu grande AMOR Crispim,
Cada dia que passa, me surpreendo com sua fé e força de vontade para realizar seus desejos, acompanho seus relatos e fico na expectativa pela sua chegada em nossa casa. Força amor, agora falta pouco!!! Estamos todos te esperando e morrendo de saudades. Com carinho, Branca Fonseca, Serginho, José Tobias, Valentina e Kikinha



Recado 5910
Alison de São Carlos/SP

vai Crispim!!! Falta pouco pra chegar la!!!


Recado 5911
Pedro Lourenço de Piracicaba/SP

.....Acelera Crispim, estamos com você, ande por nós, logo,logo, estaras aos pés de N.Senhora e serás abençoado!


Recado 5912
Miro de São Carlos/SP

Olá Pelegrinos!!! esta chegando a hora....dia 08/09 estaremos partindo de São Carlos pela primeira vez no caminho da fé. Alison voce vai com a gente?
Camila Rondom de Campo Grande, estamos esperando por voce tambem.
A Dona Ilda de Tupâssi-Pr.conto com as suas Orações pois sempre nos deu muita força. agradeço infinitamente.

Crispim, sem te conhecer, mas já estou te admirando pela tua luta nestas pedaladas, vai com fé que voce chega lá; em breve é eu que estarei neste mesmo dilema. é pra isso que vivemos, e os desafios faz parte da vida.
Abraços.
MIro



Recado 5915
Maurão de Inconfidentes/SP

É isso ai meu amigo Crispim,vc viu aquele ditado que de grão em grão a galinha enche o papo,vc de pedalada em pedalada vai chegar na casa da Mãe se Deus quiser.Agora falta pouco administra bem seu cronograma que está quase lá.Vai c/ Deus e nossa Mãe Maria Santissima.Maurão,Inconfidentes.


Recado 5916
Gesualdo de Mogi Guaçu/SP

Para Crispim
Falta muito pouco, vc deve estar descansando na pousada maravilhosa de Luminosa da Dona Ditinha e do Sr. João. Aguenta porque agora falta praticamente somente a serra da luminosa. Aconselho subir acompanhado se possível e leve algum suprimento energético. 

GRANDE ABRAÇO!



Recado 5924
Igor Magrini de Santa Bárbara D'Oeste/SP

Saudações peregrinas...tenho acompanhado os relatos do Crispin, e é impossível não simpatizar com sua peregrinação e desejar sorte além de incluí-lo nas nossas orações. Já fiz o CF 2 vezes a pé, e de fato não é fácil, mas é recompensador. Quando vc adentrar a Basílica vai entender o que dissemos, pois é algo tão intenso que não se explica. Fé e Força meu caro! to aqui torcendo por vc....acelera que falta pouco. Não deixe de passar na pousada da D. Inês (km 106), e muito menos no Márcio (km 93)..são pessoas que nos inspiram e nos fortalecem. Em campos do jordão vc se sentirá em casa tamanha é bondade e receptividade do edson, marilda e bianca. Vai lá, estamos acompanhando sua "batalha"..abs


Recado 5925
Ednaldo de Salvador/BA

Grande amigo Crispim!

Falta pouco para chegar no Santuário Sagrado da nossa Querida Mãe Aparecida.
A torcida daqui de Salvador é forte, temos o mesmo sentimento da nossa amiga Branca Fonseca, a certeza do seu sucesso e de todos os demais peregrinos nessa Caminhada de Fé e Amor".

"Pé nos pedais" e boa sorte sempre.

Ednaldo, Marlene e Paulinha.

E.t: York manda um "au! au!" para voces.



Recado 5927
Cristina de Ribeirão Preto/SP

Crispim,estou te acompanhando desde de São Carlos ,voce não errou em nada tudo é aprendizado.Muitos te acompanham por voce ser puro de coração,este é o verdadeiro cicloturismo ,boa sorte.


Fotos

Fachada da Pousada da Praça

Jardim da área interna

Janelas com floreiras

As plantas combinam com o estilo rústico

Vista da cidade a partir do 2º andar da pousada

Área superior em reforma

Mesas e cadeiras coloridas na área do café


Móvel rústico

Fábrica de polvilho

Fazenda nas proximidades do sítio

Chegando no sítio da Tia Tiana e Tio Zé

Parte lateral da casa

Arroz, feijão e ovinho caipira feitos no fogão à lenha. Uma delícia!

Praça da igreja e Hotel Central ao fundo

Fachada da igreja matriz





terça-feira, 30 de outubro de 2012

Estiva - Paraisópolis

Cruz de madeira em homenagem ao médico-peregrino morto por abelhas


Para sair de Estiva fiz o mesmo caminho da procissão, só que no sentido inverso. Cheguei na ponte e atravessei a rodovia Fernão Dias. O dia ainda estava clareando. Do outro lado da cidade segui por um caminho de terra. Encontrei com crianças na beira da estrada esperando pelo transporte escolar. Ao passar por elas, acenei com a mão dizendo "Bom Dia". Elas me olharam admiradas e retribuíram o cumprimento. Desde que iniciei o CF em São Carlos tive a ilusão de que todas as pessoas que eu cruzava pelas estradas sabiam que eu era um peregrino e que viajava rumo à basílica de Aparecida. Com o tempo percebi que ao encontrar alguém pelo caminho era eu que cumprimentava primeiro. As pessoas apenas retribuiam. Mas o caminho é tão mágico que durante muito tempo tive a impressão de ser o contrário. 

As 08:30 h eu já havia vencido a Serra do Caçador. Apoiei a bike no tronco de uma árvore, sentei no chão e com os olhos fechados senti toda a energia daquele lugar. Curti novamente a liberdade de estar sozinho. Antes de seguir em frente procurei por um graveto e quando o encontrei fiz uma inscrição no meio da estrada: "Crispim 08:30 h". Com certeza, o Tim e a Marílis iriam saber o horário que passei por ali. Dada a inclinação da ladeira seria impossível passar por ali pedalando. Um pouco mais a frente encontrei com um cão solitário. Não parecia estar perdido. Ele vinha andando na estrada em direção à Consolação. Diminuí o ritmo da pedalada e lhe fiz compania por uns 2 Km. Conversei com ele como se estivesse conversando com um amigo. Falei das minhas aventuras pelo Caminho da Fé e das minhas decepções com as pessoas. Lhe ofereci água mas ele não aceitou. Seguia num trote apressado parecendo que tinha hora pra chegar. Quando parei para descansar ele seguiu em frente e desapareceu numa curva da estrada.

Faltando poucos quilômetros para chegar em Consolação avistei uma porteira do lado esquerdo. Ao lado dela tinha uma cruz de madeira com uma inscrição. Trazia um nome na horizontal e uma data na vertical com uma outra inscrição que não pude entender. Eu já havia encontrado muitas pelo caminho mas aquela em especial me chamou a atenção. Desci da bicicleta e me aproximei. Foi nesse momento que me veio à mente a história do médico-peregrino atacado por abelhas. A primeira vez que ouvi o comentário foi em Descalvado e depois em Águas da Prata. Na sede, tive a oportunidade de consultar o livro dos peregrinos e vi a mensagem e o dia que ele havia passado por lá. Se não me engano, ele era otorrino e morava em São Sebastião do Paraíso/MG. Era alérgico à picadas de abelhas e infelizmente naquele ponto foi atacado por um enxame ou por algumas delas, não sei ao certo. Para quem tem esse problema, uma única picada poderá ser fatal. Fiz uma oração pedindo a Deus que colocasse sua alma em bom lugar. Depois da oração, fiz o sinal da cruz e segui em frente rumo à Consolação.
Ainda bem que o último trecho antes da cidade foi numa banguela. Soltei os freios e aproveitei com toda a alegria o descidão. Cheguei na cidade sem pedalar ainda embalado pela velocidade da magrela. Parei em frente à igreja e felizmente a porta estava aberta. Entrei para agradecer e pedir proteção no restante da viagem. A pousada da Dona Elza ficava bem ao lado. Peguei a credencial para carimbar e após encher a caramanhola de água partí rumo à Paraisópolis. 

Inconscientemente eu estava pedalando num ritmo mais forte. Por alguns momentos eu ainda pensava que o Pedro estava lá na frente me esperando. Mas agora a situação era diferente, eu é que vinha na dianteira. Atrás de mim vinha o casal de Mococa, o Tim e a Marílis. Saindo de Consolação, andei por algum tempo no acostamento da rodovia, em nenhum momento cruzei com algum veículo. Melhor assim. Um pouco mais à frente o caminho entrava novamente numa estrada de terra. Segui uns 400 m beirando um riacho para mais a frente atravessar uma ponte, o caminho retornava em sentido inverso. Depois de um certo tempo percebi que fiz um "U" simplesmente para poder passar para o outro lado do rio. Toda a região era cercada por pequenas propriedades rurais e com grande predominância na criação de gado. A coisa mais difícil de acontecer era encontrar alguém andando pela estrada e quando isso acontecia eu me sentia feliz. Não sei explicar. Talvez, a ideia de uma completa solidão me deixasse um pouco intranquilo. Quase chegando em Paraisópolis fui finalmente alcançado pelo Tim, logo atrás vinha a sua esposa. Pedalamos juntos até a pousada da praça, onde pernoitamos.


Recados 5904/05


Estiva-Consolação

Acordei bem cedo e saí rumo à Consolação. A intenção era subir a Serra do Caçador antes que o sol estivesse "fritando" na cabeça. E deu certo, as 08:30h já havia vencido a subida e desfrutava de um visual incrível no alto do morro. Imprimi um ritmo forte ainda achando que o Pedro estava lá na frente me esperando...rsrsrs Na verdade era eu que vinha na frente pois tinha um casal de Mococa vindo depois de mim (Tim e Marílis).

Antes de Consolação avistei uma cruz ao lado de uma porteira. Possivelmente era do médico-peregrino que foi atacado por abelhas...Parei um instante e fiz uma oração!!! A chegada em Consolação foi tranquila e depois de algumas fotos carimbei a credencial e segui rumo à Paraisópolis.

Consolação-Paraisópolis

Sem perder muito tempo segui rumo à Paraisópolis. O trajeto é mais fácil do que o anterior mas o horário já prejudicava a pedalada. O sol já apontava quase 90º. Parei algumas vezes para descansar e tirar fotos. Faltando 8Km para a chegada fui alcançado por Tim e Marílis, o casal de Mococa que vinha logo atrás. A partir desse momento pedalamos juntos até a Pousada da Praça. 

Chegando lá fomos muito bem recebidos pela Jandira. A arquitetura e decoração do local é em estilo rústico, de muito bom gosto. A localização também é ótima, fica no centro da cidade.

Eu passei boa parte da juventude nesta cidade, um amigo meu tinha parentes na área rural. Amanhã vou pegar a bike e ver se os encontro. Já faz 15 anos que estive aqui pela última vez...



Fotos


Área rural de Estiva

Um pouco antes de subir a serra


Inscrição deixada no meio da estrada no alto da serra

Vista do alto da Serra do Caçador

Divisa de municípios

Capela no bairro Boa Vista

Seria um peregrino?

Esse simpático cãozinho me acompanhou durante 2 Km

Chegando em Consolação

Vista atrás da igreja

Fachada frontal

Imagem de Cristo crucificado

Corredor central e altar em reforma

Praça

Deixando a cidade de Consolação

Placa indicando o destino Paraisópolis

Depois da rodovia entrei a direita nesse ponto

A estrada margeando o rio

Ponte de madeira, o caminho segue virando à esquerda

Entrada de um dos muitos sítios das redondezas

O caminho passa contornando essa bela montanha

Momento em que fui alcançado pelo casal de Mococa

Nesse ponto já é possível avistar Paraisópolis

Marílis pousando para a foto em frente à igreja de Paraisópolis


 
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