segunda-feira, 24 de setembro de 2012

O pesadelo no Santuário do Desterro

Fear of the dark por Antonio Trivelin no Flickr


Final do ano de l869.Na penumbra do cerrado existente na colina, no silêncio, o vulto de um homem, aparentando seus cinqüenta anos, quedo em oração, busca consolo para a angústia de sua alma. Esse homem – Coronel João Gonçalves dos Santos – atribulado pelas provações, lembra-se que só em Deus encontraria paz e resignação para os seus sofrimentos. Como homem de fé, ele tem em seu pensamento o mistério da fuga da Sagrada Família para o Egito. Imagina, com os olhos da fé, as angústias da aflita Mãe e seu doloroso exílio.Inspirado na piedade e na confiança de Maria,  exclama: “Queridíssima e aflita Mãe! É do vosso agrado que eu levante aqui, neste ermo, uma Capela em sua honra? Livrai-me, pois, dos grandes males que me afligem”...O Coronel é atendido em sua súplica, obtendo a graça.Reconfortado,  inundado de paz e alegria, cumpre, imediatamente,  a sua promessa.E assim, a pequena Capela, simples e modesta, sob a invocação de Nossa Senhora do Desterro é erguida, como testemunho de sua devoção,  de gratidão e de amor à Mãe de Deus. 


A Capela de Nossa Senhora do Desterro, que hoje vemos na Colina do bairro do mesmo nome, foi construída em 1936, pelas mãos operosas do inesquecível sacerdote estigmatino Padre Luís Maria Fernandes. Mas a sua origem remonta ao ano de 1869, quando o Coronel João Gonçalves dos Santos, cumprindo promessa feita à Virgem Maria, erigiu uma humilde capelinha no lugar denominado Alto da Boa Vista, local inserido na antiga Fazenda Casa Branca. Conta a história, principalmente os descendentes do Coronel, que a imagem que repousa no altar da Capela veio de Portugal. O Coronel e seus familiares reuniam-se em torno dela para, diariamente, rezarem o terço. No entanto, outras pessoas também foram se achegando à família e passaram a freqüentar os momentos de oração diante da imagem, surgindo a necessidade de aumentar a pequena capela. Dia a dia aumentavam as pessoas que procuravam a Virgem Santa, para um pedido ou para uma oração. Diante disso, em 27 de abril de 1890, o Cônego Miguel Martins da Silva, vigário da paróquia, celebrou ali a primeira missa. Mas o fluxo popular continuava a crescer com o correr do tempo e a capelinha tornara-se pequena, e ainda mais, quase em ruínas, ameaçando desabar. Sob a orientação do Cônego Oscar Sampaio Peixoto – pároco de Casa Branca -  no ano de 1931, ela foi reformada e ampliada. Ainda assim não foi suficiente. Em 1936, quando a paróquia passou para as mãos dos Padres Estigmatinos, o Padre Luís Maria Fernandes resolveu demolir a antiga igreja e construir uma outra, bem maior e que poderia atender ao grande movimento de romeiros e fiéis, sofrendo algumas alterações, principalmente na fachada. E até hoje, ela está servindo a todos, propagando a devoção à querida Mãe – Senhora do Desterro.

O pesadelo

Subi as escadas em direção à ala que dava acesso ao meu quarto. Antes disso, tranquei a porta de vidro e acendi a luz do corredor. Já estava tudo escuro. Segui em frente e atravessei uma porta de madeira. Essa porta era dividida em duas partes, semelhante áquelas dos filmes de faroeste. Com a força do vento ela balançava pra frente e pra trás produzindo um som assustador. Não importa quantos anos a gente viva, quando a noite cai ela traz consigo temores escondidos em nossa alma desde criança. Quanto mais eu avançava pelo corredor mais eu me sentia desconfortável. Quando cheguei ao quarto fui até a janela observar o movimento lá fora. A igreja estava linda, toda iluminada e ao fundo ouvia a celebração da missa que ocorria naquele exato momento. Depois, haveria um baile e a festa avançaria pela madrugada. O estacionamento estava lotado de carros e o movimento de pessoas na área externa do Santuário era um alívio, pelo menos momentâneo. Fui tomar um banho pra relaxar esperando que o sono viesse. Olhei no relógio, 22:00 h. A música do baile ecoava por todo complexo. O sono começou a me pegar, as duas cervejas devem ter contribuído bastante. Acendi a luz do corredor e deixei a porta do quarto aberta. Se algum barulho viesse lá de fora era mais fácil ouvir. Entorpecido pelo álcool, apaguei...

Quando deu 03:15 h acordei. Tive a impressão de apenas ter piscado os olhos, quando na verdade já havia dormido 5 horas. Olhei pela janela do quarto e o estacionamento já estava vazio. A igreja continuava linda e toda iluminada. O barulho do baile havia cessado e só se ouvia o assovio do vento lá fora. Eu ainda estava com muito sono e extremamente cansado. Dei uma olhada naquele corredor vazio e comprido cheio de portas e sem uma alma viva por perto. Me dei conta que ainda faltavam praticamente 3 horas para amanhecer. Eu queria sair dali mas o que fazer lá fora as 03:00 h da madrugada? O jeito era tentar dormir novamente. Fui para a cama e fechei os olhos. O ruído da porta faroeste lá no final do corredor estava me incomodando. O vento entrava pela janela frontal e fazia a porta abrir e fechar produzindo um "nhac, nhac" assustador. Fiquei imaginando o som de uma porta batendo ou o burburinho de pessoas conversando. Jà estava aterrorizado pelo medo. Levantei da cama e olhei novamente pela janela. A altura até o chão era de mais ou menos 3 metros. Se precissasse pular numa emergência não seria tão perigoso. A minha mente estava inquieta e eu já pensava em todas as possibilidades de fuga. Voltei pra cama tentando me livrar dos pensamentos perturbadores. Olhei no relógio e ainda eram 03:30 h, a hora não passava de jeito nenhum.

Lembrando os tempos de criança comecei a contar carneirinhos. Um, dois, três...208,209,210 e o sono vindo lentamente. A imagem dos bichinhos pulando a cerca já era vaga. Eu estava agora dentro de um castelo medieval. Um grande salão em forma de semi-círculo iluminado por inúmeras lamparinas a óleo. Apesar disso o lugar tinha um aspecto lúgubre, sepulcral. Ao fundo pude observar algumas pessoas. Elas vestiam túnicas marrons com capuzes pronunciados e calçavam botas pretas até o joelho. Dá onde eu estava não dava pra ouvir o que conversavam mas percebi que dentre eles havia um líder, era ele que dava as ordens. Eu estava escondido atrás de um pilar e fiquei todo tempo abaixado para não ser visto. De repente, pararam de conversar e foram todos em direção a um corredor. Um deles empunhava uma adaga na mão direita. Subiram um lance de escada e abriram uma porta de vidro. Meus Deus!!! Eles estavam indo em direção ao quarto em que eu dormia...Mas como???  Se eu estava ali vendo tudo...Eu precisava fugir imediatamente!!! Precisavam de um peregrino do Caminho da Fé para um sacrifício. Era isso...faziam parte de uma seita secreta e me queriam para um ritual satânico. Sabiam que eu estava ali sozinho, indefeso e sem ninguém para ajudar. Eu precisava reagir, não queria morrer daquela forma sem ter atingido o meu grande sonho de concluir o CF. Nossa Senhora precisava me ajudar, não seria justo ser abandonado e entregue para aquele banquete macabro.

Ouvi de longe a porta de madeira balançar. Os passos no corredor iam ficando cada vez mais fortes. Eu já não estava mais observando tudo, eu estava no quarto deitado na cama. Inerte. Esperando pela hora derradeira. O sujeito que segurava a adaga na mão entrou primeiro e os outros ficaram na porta do quarto impedindo qualquer possibilidade de fuga. Ele me puxou pelas pernas, tentando me arrastar para fora. O pânico paralisante havia passado e agora eu precisava lutar pela minha vida. Puxei as pernas com toda a força que eu tinha e tentei me desvencilhar. Tentei abrir os olhos mas eu não conseguia. Eu precisava enfrentar aquela situação, não tinha como escapar. Inexplicavelmente eu não conseguia usar os braços para lutar, só as pernas funcionavam. Concentrei todas as forças do mundo nas minhas pernas  e num movimento rápido e inesperado dei um pontapé no meu algoz. Neste momento abri os olhos e  tudo havia desaparecido. Meio tonto, não havia percebido se sonhava ou se realmente havia vivido tudo aquilo. O meu corpo suava em bicas. Eu olhei na janela e vi sinais da aurora radiante. No corredor a porta ainda balançava com a força do vento. Fui no banheiro e olhei no espelho, a imagem refletia o cansaço daquela batalha. Me dei conta que estava vivo. Dei um sorriso e respirei fundo. Agradeci a N.S.Aparecida por ter me salvado. Arrumei as minhas coisas e desci para o café. Não comentei nada com ninguém e deixei o Santuário do Desterro em direção à Vargem Grande do Sul.

domingo, 23 de setembro de 2012

Casa Branca

Vista da janela do quarto onde dormi no Santuário do Desterro

"Entre os antigos, Entusiasmo significa transe, arrebatamento, ligação com Deus. O Entusiasmo é Ágape dirigido a alguma ideia, alguma coisa. Todos nós já passamos por isto. Quando amamos e acreditamos do fundo de nossa alma em algo, nos sentimos mais fortes que o mundo, e somos tomados de uma serenidade que vem da certeza de que nada poderá vencer nossa fé. Esta força estranha faz com que sempre tomemos as decisões certas, na hora exata, e quando atingimos o nosso objetivo ficamos surpresos com nossa própria capacidade. Porque, durante o Bom Combate, nada mais tem importância, estávamos sendo levados através do Entusiasmo até nossa meta."

O trecho acima é uma passagem do livro O Diário de Um Mago do Paulo Coelho, capítulo O Entusiamo, página 117. Para quem não sabe o livro narra a peregrinação do autor pelo Caminho de Santiago de Compostela. Eu já havia lido outras duas vezes e acabei conhecendo o Caminho da Fé através de uma referência no fórum do Caminho de Santiago. Eu resolvi transcrever esse trecho porque acredito fielmente que descreve tudo o que aconteceu comigo no trajeto Tambaú-Casa Branca, descrito no post anterior. Chegando na cidade parei em uma quitanda para tomar uma água e aliviar as pernas do esforço da viagem. Conversei com um senhor que estava no local, ele transportava batatas pela região e me alertou dos perigos da Serra da Fartura. Ele disse: "Quando chegar na Serra tome cuidado com os caminhões, eles te jogam fora da estrada". Eu fiquei meio sem entender, mesmo porque estava muito longe do local. Paguei a água com algumas moedas e me despedi do batateiro, agradecendo pelo aviso.

Cheguei no complexo do Desterro e logo fiquei impressionado com a imensidão e a beleza do lugar. A igreja fica posicionada bem na frente e dos lados tem salões grandes que servem como cozinha, restaurante e auditórios para festas e convenções. Ainda há uma construção de dois andares que abrigam os padres, freiras e seminaristas. Foi nesse local, no 2º andar que fiquei hospedado. Era um local enorme. Subindo uma escada chegamos num corredor que dava para duas alas, uma a direita e outra a esquerda. Na ala da direita onde fiquei, pude contar 10 quartos. Todos com pelo menos 3 beliches cada um. Fiquei no penúltimo, do lado esquerdo do corredor e com vista direta para o jardim e para a igreja (foto acima). Antes de arrumar a cama, eu perguntei para a Dona Maria: "Eu vou ficar aqui sozinho?". Ela balançou a cabeça de forma afirmativa indicando que sim. Nessa hora me subiu um friozinho na espinha. Respondi que tudo bem  tentando disfarçar o meu desconforto.

Aproveitei o período da tarde para visitar o centro da cidade. Fui em direção a praça da igreja matriz. Logo na saída do santuário tem uma ladeira bem extensa, soltei a bike e fui curtindo aquele ventinho gostoso no rosto. Com sorte, encontrei a igreja aberta e pude entrar para fazer uma oração e tirar algumas fotos. Em seguida fui almoçar num restaurante por perto e logo procurei uma mesa próxima da calçada. Tinha que ficar de olho na minha companheira de viagem. Poucos minutos depois chegaram dois bikers e sentaram próximo a mim. Um deles só tinha o cotoco do braço esquerdo, a parte do cotovelo pra cima. Mas tinha uma enorme habilidade em pilotar a bicicleta, algo que notei logo na sua chegada. Puxei conversa e soube que eram da região, um deles (o outro) já tinha feito o CF no ano passado e ambos conheciam a Dona Cidinha. Nos fins de semana faziam o trajeto Casa Branca-Vargem Grande-Dona Cidinha e voltavam no domingo à tarde. Informaram que o caminho até Vargem era tranquilo e bem agradável. Me desejaram Boa Sorte e saíram em seguida.

Dei uma passada na lan house que ficava próxima dali e descarreguei algumas fotos no blog. Já começava a escurecer e eu precisava voltar para o Santuário. A Dona Maria me esperava as 19:00h para o jantar. No caminho de volta chegando bem perto do complexo do Desterro eu avistei um bar e ao olhar no relógio ainda vi que eram 18:30h. Pensei: "Dá tempo de tomar uma cervejinha". A noite estava agradável, um clima ameno com uma brisa suave. O bar ainda estava vazio, devia ter umas quatro ou cinco mesas ocupadas. A maioria era de funcionários de uma empresa, curtindo um happy hour depois do expediente. Pedi uma cerveja e fiquei observando todos a minha volta. Quando estou sozinho num bar ou restaurante sempre faço isso, fico tentando descobrir o que estão falando, de onde vieram e outras tantas porções de coisa malucas. Mas a minha parada ali, tinha outra explicação. Fui guiado pelo subconsciente. Eu teria que passar a noite, sozinho, no Complexo do Desterro. Quando terminei a cerveja já eram 19:00h, eu já devia estar jantando aquela hora, mas ainda estava ali....no bar...viajando com meus pensamentos.

Resolvi me atrasar mais ainda e pedi outra cerveja. Imaginei: "Com duas na cabeça será mais fácil dormir...". Quando terminei a segunda garrafa, paguei a conta e fui embora. Cheguei 1 hora atrasado e o jantar já havia esfriado. Me desculpei com a Dona Maria e não deixei que ela esquentasse novamente a comida. Ao terminar a janta agradeci pela refeição e me dirigi ao quarto. Antes de ir deitar seu esposo me deu as chaves e me disse a seguinte frase: "Como você está sozinho, tranque a porta, é mais seguro..." Se eu já estava cabreiro antes disso, depois dessa frase a minha cabeça ficou dando um nó. O que será que ele quis dizer com aquilo? Seria perigoso dormir ali sozinho? Já teria acontecido alguma coisa com algum peregrino anteriormente? Eu tentava responder essas perguntas mas ficava ainda mais confuso...O que eu podia  esperar daquela noite?


Fotos


Monumento na entrada lateral do Santuário do Desterro

Corredor lateral direito. Dá acesso à cozinha e retiro dos padres

Corredor da ala onde dormi

A minha companheira sempre comigo

Igreja matriz de Casa Branca

Estátua na praça da igreja

Entrada principal. A porta é toda entalhada 

Vista do corredor central interno

Altar

Vista lateral e parte do teto

Imagens

Casarão histórico na praça central

Perspectiva lateral do casarão

Vista da lateral oposta de onde dormi no Santuário

Vista lateral da igreja do Desterro

Corredor central. Vista a partir do altar para fora

Vista da entrada para o altar



sábado, 22 de setembro de 2012

Tambaú - Casa Branca

Santuário do Desterro

Antes de partir do Hotel Tarzan perguntei ao proprietário se o caminho pelo asfalto até Casa Branca era mais curto que o caminho da fé. Ele respondeu que sim e inclusive já tinha feito o trajeto de bike. No guia do Antonio Olinto o percurso pelo CF apontava 32,24 Km. Eu fiquei na dúvida sobre qual caminho seguir. Guardei o guia na mochila e resolvi ir perguntando até chegar no começo da estrada. Andei poucos quilômetros dentro da cidade e logo já vi a entrada para Casa Branca. Era um caminho de terra, na verdade, uma estrada com tráfego bastante intenso. Consegui visualizar algumas placas do CF que não correspondiam ao que estava indicado no guia. Fiquei pensando que aquela estrada também podia ser um caminho alternativo.

Logo no início me deparei com bastante entulho e sujeira na beira da estrada, pelo lugar ser ermo o pessoal aproveita para descartar esse material por ali. Também encontrei com um cachorro morto, pelo tamanho e forma devia ser um rottweiler, já estava em avançado estado de decomposição. Pela primeira vez durante a viagem, me deparei com a morte, cruel e inexorável. Vencida a curiosidade mórbida devidamente registrada com uma foto, avancei na estrada em direção à Casa Branca. Nesse ponto comi poeira... literalmente falando. Os treminhões de cana passavam por mim e levantavam aquela nuvem vermelha de pó, situação agravada pelos vários dias sem chuva. Resolvi fazer a primeira filmagem da viagem, eu não tinha muita intimidade com este recurso da máquina fotográfica, mas acabou ficando bem legal. E a partir desse dia foram dezenas de filmes que acabei fazendo. Outro equipamento que estava guardado sem uso era o MP4 que ganhei do meu irmão. Tirei da mochila e coloquei no ouvido para distrair um pouco...

Em São Paulo eu havia gravado músicas diversas num total de 47. Tinha de tudo: Raul Seixas, Beatles, Dido, Linking Park, IRA, Cold Play, U2, Evanescence, Black Eyed Peas, The Cranberries, Legião Urbana, Soft Cell, Joe Strummer, Jack Johson e por aí vai...Quando começou tocar Quiet Times da Dido, eu senti algo muito forte. Uma sensação de paz tomou conta do meu corpo e da minha alma. Olhava a paisagem em minha volta e achava tudo muito lindo. De repente, me veio no pensamento a minha amada esposa, meus cachorros um por um, a imagem deles sorrindo invadiu a minha mente. Comecei a pensar nos dias anteriores da caminhada, nos propósitos que me faziam estar ali e dos objetivos que eu tinha que alcançar. O tom melancólico da música fez com que eu começasse a chorar. Chorei igual menino, uma sensação de alegria, saudades, não sei explicar direito...

A partir daquele instante, foi o dia mais feliz da viagem e um dos dias mais felizes da minha vida!!!

A estrada de terra acabou e começou o asfalto. Eu parei a bike e aumentei o volume do MP4 no máximo e vim descendo a ladeira. Dez, vinte, trinta, quarenta, 50Km/h ao som de Beatles e eu me sentindo indestrutível. Que sensação maravilhosa!!! Nada e ninguém eram capazes de tirar aquilo de mim naquele momento. Nem a quebra da bolsa, um tsunami no Atlântico Sul, um meteoro desgovernado em direção à Terra, a morte de um ente querido eram suficientes para acabar com a minha felicidade. Um sentimento muito poderoso que só lembro ter sentido quando saltei a primeira vez de pára-quedas. Eu estava em êxtase...A medida que fui seguindo, aquela sensação foi diminuindo mas o sentimento de paz permaneceu por muitos dias. 

Se eu tivesse seguido pelo caminho oficial talvez não teria experimentado todas aquelas sensações. É difícil dizer agora, que já passou, mas o lugar, o clima, a música, a estrada, a velocidade da bike, tudo enfim... conspirou para aquele resultado. Me senti o homem mais feliz e poderoso do mundo, foi isso o que aconteceu...O caminho da fé nos faz tomar decisões a todo tempo, até mesmo a decisão de desviar e fazer outro trajeto. Fiz isso várias vezes e por razões diferentes. Nem sempre conseguia explicar o porquê, simplesmente fazia.  Acredito que a grande vantagem de viajar sozinho é ter a possibilidade de decidir usando a intuição. E isso faz toda a diferença... Voltando pra estrada, o caminho até Casa Branca seguiu livre, leve e solto...Pelo meu ciclocomputador rodei 7 Km a menos, comparados ao Guia do caminho da fé.


Recados 5833/34

Tambaú-Casa Branca

O trecho mais emocionante do caminho até aqui...

Saí cedo de Tambaú e infelizmente não pude assistir a missa as 09:00h. Segui até a saída da cidade conforme o Guia e as setas amarelas. Foi nesse percurso que se desenhou o que aconteceria pela frente. Comi muita poeira com o trânsito intenso dos treminhões de cana de açucar. Pela primeira vez durante a viagem resolvi pegar o MP3 e ouvir um pouco de música para me distrair. Foi nesse momento que as lágrimas começaram a cair pelo canto dos olhos. Lembrei da minha amada esposa, dos meus filhos Serginho, José Tobias, Valentina e do meu afilhado Raul e a saudades de casa bateu forte. Pensei no propósito que me fazia estar ali. Fé, coragem, superação, e um desejo enorme de amar o mundo!!!

Foi o dia mais feliz do Caminho...

Continua...

E um dos dia mais felizes da minha vida!!!

Sozinho na estrada ouvindo um som manero dos Beatles e a bike descendo feito um foguete nas ladeiras (com toda atenção e prudência). Hoje apertei os freios quando o velocímetro cravou 50 Km/h no asfalto.

Desviei do Caminho (setas amarelas) e resolvi ir pela pista. Rodei 6Km a menos e ainda evitei problemas sérios no câmbio da bike que está para estourar. Quando chegar em Aguas da Prata farei a manutenção. Hoje, finalmente consegui transferir as imagens da máquina para o pen drive. Em breve publicarei as fotos no blog. Já são mais de 400...

Dona Cidinha prepara o feijão que eu estou chegando!!!

Os bikers aqui de Casa Branca falaram muito bem da senhora e mandaram lembranças...

Um abraço bem forte e até amanhã!!!


Fotos


Saída de Tambaú

Cachorro morto na estrada de terra. Muito lixo e sujeira.

Tráfego intenso de treminhões de cana

Ponte sobre a linha do trem

Ponte sobre a linha do trem II

Rodovia Tambaú - Casa Branca

Sansão do campo na beira da estrada, um ótimo corta vento

Ciclocomputador indicando 50Km/h

Descanso na sombra da porteira da Fazenda Santa Rita

Coruja no topo da cerca

Porteira de uma fazenda

Árvore muito bonita na beira da estrada 

Entrada de uma fazenda na beira da rodovia

Porteira

Máquina de irrigação 

Lindo ipê amarelo

Irrigação na plantação de milho

Estrada para quem vem do caminho oficial. Cruza com o asfalto

Cidade de Casa Branca ao fundo

Ciclocomputador indicando 22,15 Km percorridos

Placa indicativa 

Rua próxima ao Santuário do Desterro

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

Tambaú

Padre Donizetti

A primeira coisa que fiz ao chegar em Tambaú foi procurar o Hotel Tarzan, no qual, já havia feito reserva no dia anterior. Eu digo até que as reservas eram desnecessárias tendo em vista que o mês de agosto é um mês de pouco movimento e poucos peregrinos. Até agora eu não havia encontrado ninguém na estrada e muito menos nas pousadas. A minha esperança era que a partir de Tambaú pudesse encontrar finalmente uma compania. Cheguei no hotel (fica atrás da igreja) e fui direcionado ao meu quarto no 3º andar. Perguntei se podia levar a bicicleta ao quarto e a recepcionista me disse que poderia deixar no corredor ao lado da recepção. Não gostei muito da ideia e ao voltar do almoço carreguei a bike nas costas três lances de escada . Ela é a minha companheira de viagem e nada mais justo que fique hospedada comigo no quarto. Resolvido isso fui almoçar...

A indicação do almoço me levou ao bar do Geninho que fica a um quarteirão do hotel e na parte lateral da igreja. O bar olhando por fora era bem simples e lá dentro tinha centenas de fotos do proprietário com celebridades, clientes e peregrinos. Pedi um bife acebolado e antes uma cervejinha para aplacar o calor insuportável. O Seu Geninho veio me servir e logo puxou conversa. A primeira coisa que disse quando falei que havia saído de São Carlos, é que o verdadeiro caminho começava ali, em Tambaú, era o primeiro e o original. Notei um certo ar de bairrismo em sua colocação, mas não dei muita importância. A comida chegou logo e com aquele temperinho caseiro, igual a comida da casa da vó. Ao pagar a conta só achei um pouco salgado os $ 18 cobrados pela refeição. E olha que não sou pão duro, longe de mim...principalmente pra comer não tenho medo de abrir a mão. E já que eu toquei nesse assunto, confesso que tenho muita dificuldade em me relacionar com gente deste tipo, sovina. O sujeito pode ter muitos defeitos como todos nós temos, mas se for sovina já fico com o pé atrás. Aquela pessoa que fica contando os centavos pra dividir uma conta exatamente em partes iguais, já não joga no meu time. Eu sou o extremo, mão aberta, gosto de presentear e sem falsa modéstia sou uma pessoa bastante generosa com meus amigos.

Ao sair do bar do Geninho fui em direção à lan house que fica ao lado. Atualizei o relato no livro de visitas do CF e tentei descarregar as fotos que havia na máquina. Infelizmente não foi possível. Resolvi fazer uma visita no museu do Padre Donizetti. A casa onde ele viveu e operou os milagres nas décadas de 50 e 60. A quantidade de objetos impressiona. Não só pela quantidade mas também pela diversidade de itens. Óculos, muletas, próteses ortopédicas, capacetes, garrafas de cerveja e cachaça, além de objetos pessoais e centenas de fotografias de romeiros do Brasil inteiro. Fiquei atento observando tudo, desde os quadros de família nas paredes até o orgão utilizado nas cerimônias religiosas. Para quem passa por Tambaú ou inicia o caminho a partir dali é uma visita quase que obrigatória. Depois do museu, fui até a igreja. A paróquia é bem grande mas sem muitos atrativos arquitetônicos. Tudo é muito simples e o mobiliário aparenta ser bem antigo. Entrei na sacristia onde uma funcionária passa roupa e logo fui abordado pelo diácono, perguntando o que eu desejava. Respondi que estava apenas olhando o recinto. Percebi em sua expressão que eu não deveria ter entrado ali...Ao mesmo tempo que me convidara para acompanhar a novena que estava acontecendo na capela ao lado. Eu sou católico, fui batizado na igreja, fiz a primeira comunhão aos 11 anos mas acho que a mentalidade é ultrapassada. Bem, deixemos essa discussão para uma outra oportunidade.

Passei no hotel, tomei um banho e fui em direção ao centro da cidade. O lugar é tão pequeno que o centro acaba sendo a própria cidade. O que eu quero dizer é que fui nas ruas do comércio. Padaria, lojas de roupas, lotérica, correios, bancos, etc...Aproveitei e fiz uma fézinha na loteria esportiva e acabei ficando com um bolão da mega sena que foi empurrado pela funcionária da lotérica. Meio contrariado, acabei comprando. Vai que dá...Risos. Acabei percebendo que em toda cidade que eu passava, além de visitar a igreja eu fazia também um joguinho na lotérica. Quando cheguei em São Paulo já acumulava dezenas de cartões para conferir. O máximo que consegui foram $ 5,00 num cartão da Lotofácil...E isso me fez lembrar aquela história do turco que queria ganhar na Mega Sena mas não queria fazer o "sacrifício" de desembolsar os $ 2,00 necessários para o registro do bilhete. Até pra isso, o turco era pão duro. Depois de passear pelas ruas do comércio, voltei ao hotel. Já era hora de descansar...Acordei pela manhã e ao me dirigir para o café, ouvi um "zum...zum...zum". O proprietário perguntou pra mim: "E aí Crispim, conseguiu dormir direito?" Respondi que sim. Se bem que tinha ouvido um barulho lá pelas 23:00h de alguém discutindo e falando bem alto. Soube que dois funcionários de uma empreiteira que estavam hospedados no hotel, haviam saído pra beber e voltaram discutindo. Na recepção a discussão virou briga e os dois saíram na porrada. Quebraram 6 imagens de santos que havia na loja de conveniência na parte interna do hotel. Aquela hora o dono estava contabilizando os prejuízos e mandando a conta para a construtora. Sem me demorar, tomei o café e parti em direção à Casa Branca.


Fotos

Hotel Tarzan. Eu fiquei no último andar a direita

Vista da cidade a partir da varanda do quarto

Bar do Geninho, ao fundo o proprietário

Vista frontal da igreja 

Casa do turismo onde carimbei a credencial

Praça em frente a igreja matriz

Fachada da igreja

Interior da igreja

Imagem de N.S.Aparecida

Capela onde o diácono me convidou a acompanhar a novena

Museu Casa do Padre Donizetti

Estátua do Pe. Donizetti

Garrafas de pinga, cerveja deixados pelos fiéis

Muletas

Mais objetos no interior do museu

Próteses ortopédicas de adultos e crianças

Placa informativa sobre o dia da morte do padre

 
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